A indústria vem
perdendo espaço na economia brasileira. No ano passado, enquanto o Produto
Interno Bruto (PIB) avançou 2,7%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), a atividade cresceu apenas 1,6%, com queda de 0,5% no quarto
trimestre. E a tendência é que essa perda de terreno continue. A intensidade e a
rapidez com que isso vai ocorrer, porém, dependem do que o poder público e o
setor privado vão fazer daqui para frente.
"Acho que haverá
uma perda [de espaço da indústria], devido aos problemas do nosso país. Pode ser
que a indústria diminua [sua participação] para 90% do ela é hoje, ou 80%, ou
70%, ou 60%, depende da nossa capacidade de reagir", disse Julio Gomes de
Almeida, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).
Mesmo com o mercado
interno em franco crescimento, os industriais reclamam da falta de
competitividade das empresas nacionais frente aos concorrentes estrangeiros,
seja lá fora ou aqui dentro, e apontam o chamado "custo Brasil" como principal
culpado. O termo abarca problemas como alta carga tributária, custo do capital,
encargos trabalhistas em demasia, falta de mão de obra qualificada e
infraestrutura precária.
"A demanda por
produtos industrializados segue forte no País, mas as empresas brasileiras não a
alcançam, e não é de hoje, por questões de competitividade", declarou Flávio
Castelo Branco, gerente executivo da Unidade de Políticas Econômicas da
Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Os últimos
indicadores colocaram o governo em alerta. Para dar alívio à indústria, foram
anunciadas medidas como a ampliação do prazo de redução do Imposto sobre
Produtos Industrializados (IPI) para determinados itens e a desoneração da folha
de pagamentos das empresas de certos segmentos, que agora deve ser estendida a
outros. Isso, além das ações para conter a valorização do real sobre o dólar. O
real em alta faz com que as mercadorias brasileiras fiquem mais caras no
exterior e que as importadas tenham preços mais baixos aqui.
Tais medidas são
bem-vindas, mas são ações de curto prazo, criadas para dar um impulso temporário
às empresas diante de uma conjuntura desfavorável. Servem, segundo Almeida, para
dar "isonomia", ou "empatar o jogo" entre o produto brasileiro e o importado,
que não paga esses tributos na origem. Faz tempo, porém, que o País precisa de
ações de longo prazo para resolver seus problemas estruturais. Para Castelo
Branco, são necessárias políticas públicas para "mudar o quadro" do setor.
Mas não é só o
governo que precisa se mexer. É consenso entre analistas que tanto o poder
público quanto o setor privado não fizeram o suficiente nas duas últimas
décadas, desde a abertura da economia brasileira, para dar competitividade à
indústria nacional. Hoje isso depende de fatores casuais, como o real
desvalorizado, ou um forte crescimento da economia internacional.
É que durante boa
parte desse período o mundo estava em crescimento, então havia demanda por
produtos de todos os gêneros e origens, e o Brasil ainda não era um mercado tão
cobiçado por seus concorrentes. Salvo exceções, muitas companhias mantiveram
postura semelhante à que tinham nos tempos em que a economia nacional era
fechada, e a indústria, protegida.
"Estávamos
acostumados com o governo vir com algum grande programa, jogar dinheiro e, aí, a
coisa melhorava", afirmou o professor de economia da Fundação Getulio Vargas
(FGV), Evaldo Alves. "Agora isso não basta mais", acrescentou.
É que o mundo
mudou, principalmente após a crise de 2008. A economia global não cresce mais
como antes e o Brasil passou a ser um mercado muito mais atraente para as
indústrias estrangeiras, que passaram a concorrer com as brasileiras também no
mercado doméstico, além do internacional.
"O Brasil tem
adiado muito a adoção de medidas em áreas estruturais, mas não foi muito grande
o sacrifício até agora, porque o mundo crescia, mas hoje não cresce mais",
destacou Almeida. "Nós começamos concorrendo com as empresas do primeiro mundo,
mas isto está mudando, estamos competindo com os emergentes, entre nós, e o
desafio é enfrentar essa nova competição", afirmou Alves.
Só que alguns dos
principais concorrentes do Brasil na área industrial, como a China e a Coreia do
Sul, têm, e não é de hoje, estratégias econômicas de longo prazo. Com mais
competitividade, até empresas brasileiras têm transferido sua produção, ou parte
dela, para países asiáticos, sem falar da imensa quantidade de insumos que o
País importa.
O diretor da
Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Cleyton Campanhola,
afirmou que o governo pretende formar um "conselho de competitividade", com
representantes das empresas para elaborar políticas para a indústria. Mas não
basta esperar o governo, as empresas têm que fazer sua parte.
Fonte: Agência Anba
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