terça-feira, 13 de março de 2012

NOVO CÓDIGO PODERÁ BENEFICIAR GRANDES EMPRESAS

Antes mesmo de ser anunciado, o novo marco regulatório para o setor mineral já provoca discussões devido ao conteúdo de alguns itens do texto. A maior delas fica por conta da possível extinção do direito da pessoa física de entrar com requerimento de pesquisa de jazidas minerais.
Além disso, essa outorga só seria concedida através de licitações, o que beneficiaria grandes mineradoras como Vale e BHP Billiton, que têm muito poder de barganha em comparação às empresas menores conhecidas como junior companies, que possuem recursos mais modestos. A incerteza do novo pacote seria um entrave para perspectivas de novos investimentos nesse mercado, no País, segundo especialistas consultados pelo DCI.
"Estamos vivendo o melhor momento da mineração brasileira e mundial em 50 anos. Porém, não conseguimos atrair mais investimentos devido às incertezas do novo código", afirma o consultor do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Luciano Borges, que já foi secretário de Minas e Metalurgia.
Recentemente, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse que o novo marco regulatório é uma das prioridades do Congresso para as próximas semanas. Procurado, o ministério afirmou que, até o momento, não há nenhuma informação adicional sobre o tema e que o anúncio do novo código é esperado para breve.
Borges explica que, na maioria das vezes, a pessoa física - que pode ser um geólogo ou um garimpeiro - é aquele que inicia todo o processo de estudo mineral em um determinado local. Uma vez que os requisitos legais e regulamentares são atendidos, a autorização de pesquisa é outorgada por um alvará do diretor-geral do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). "Praticamente dois terços da mineração mundial são iniciados pelas mãos da pessoa física", diz Borges.
De acordo com o consultor, as junior companies fecham contratos de risco com pessoas físicas, assumindo a possibilidade ou não de encontrar minérios na área em questão. Caso o modelo de concessão de outorgas de pesquisa mude com o novo código, passando para a modalidade de licitação, elas passariam a brigar com as grandes mineradoras.
"Essa mudança prejudicaria profundamente a exploração de novas jazidas, no Brasil", critica Borges. Para ele, só os grandes grupos terão direito à exploração mineral, uma vez que as menores companhias possuem recursos limitados. No entanto, essa posição não é compartilhada pelo geólogo e professor do Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), de Santos (SP), Juarez Fontana, que já atuou como diretor do DNPM. Ele acredita que a medida poderia trazer o fim das especulações no setor.
"A pessoa física é o grande causador das especulações do mercado mineral brasileiro", afirma Fontana. Para o professor, dificilmente esses agentes têm recursos para bancar uma pesquisa minerária, por isso eles recorrem às junior companies. "Existe uma verdadeira indústria de requerimentos de pesquisa por pessoas físicas, no Brasil", ressalta. Ele diz que somente empresas com reais intenções de explorar minérios deveriam entrar com esse tipo de pedido, o que nem sempre acontece.
Ainda de acordo com Juarez, dentro do atual processo, caso a pesquisa não renda "bons frutos", não há problemas, pois o risco já foi calculado pelos investidores. "Trata-se de uma roleta russa e quem está envolvido sabe disso", diz. No entanto, se a exploração for economicamente viável, é nesse momento que entram as grandes mineradoras, que podem pagar muito mais do que foi investido pelas juniores.
Para o consultor do Ibram, a implantação do sistema de licitações para a pesquisa mineral pode significar uma "estatização branca" no setor. "Podemos presenciar um retrocesso muito grande nesse segmento, no Brasil", diz Borges. Para o advogado Marcio Pereira, do escritório Schmidt, Valois, Miranda, Ferreira & Agel, é preciso que aconteça uma mudança extremamente radical no código de mineração vigente para que o governo passe a licitar as áreas de pesquisa. "Ainda assim, as mineradoras interessadas só entrarão na disputa para concretizar metas que estejam dentro do plano de negócios delas", diz. A incerteza, no entanto, continua sendo um fator preponderante acerca do novo código. "Criou-se um clima muito grande de apreensão no mercado", diz Pereira.
Futuro incerto
Para Fontana, a demora na conclusão do novo marco regulatório do setor já sinaliza a preocupação do governo em não frear a dinâmica atual de investimentos na indústria minerária brasileira, que vive um grande momento. No entanto, de acordo com o professor, o texto do novo pacote tem sido discutido às escuras. "Trata-se de um diálogo a portas fechadas", destaca.
Pereira e Borges compartilham da mesma posição, porém, o consultor do Ibram é mais incisivo e ressalta que o governo não tem feito consultas públicas sobre o tema, como o setor esperava que acontecesse. "É um monólogo cifrado", destaca Borges.


Fonte: Diário do Comércio e Indústria

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