O Brasil tem mudado a sua relação com parceiros comerciais importantes, dentro e fora do Mercosul. Uma prova desta mudança é o possível fim do Acordo de Complementação Econômica (ACE) 55 com o México que o País mantém desde 2003. Segundo analistas entrevistados pelo DCI, essa guinada de rumos pode ser característica do governo Dilma e uma forma de proteger a indústria nacional.
Para o professor do Instituto Brasileiro de Mercados de Capitais do Rio de Janeiro (IBMEC-RJ), Daniel Castelan "o governo tem demonstrado uma postura de proteger um pouco mais o mercado doméstico". Ele acredita que houve também uma mudança de ênfase nas prioridades de relacionamento entre o governo do presidente Lula e da presidente Dilma. Para Lula um bom relacionamento político com esses países estava em primeiro lugar.
Outra novidade observada pelo especialista, no que diz respeito ao governo Lula e o governo Dilma, é a importância política das esferas. Para ele o governo Dilma tem dado maior peso ao Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (Mdic) do que para o Itamaraty.
Isso pode ocorrer devido à diferença de postura entre o ministro atual Fernando Pimentel, que tem uma postura mais política que o ministro do governo Lula, Miguel Jorge.
O professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Hermann Marx, concorda na variação de rumos do governo Dilma e afirma que a gestão da presidente está reagindo nas políticas de comércio bilateral, diferentemente de Lula. "Eu entendo isso como algo positivo pois gera um ambiente de discussão e de conversa", completou.
Uma série de reuniões acontece desde a última terça-feira entre representantes do governo mexicano e brasileiro. A reportagem do DCI foi informada ontem que a última parte do encontro, que estava prevista para acontecer no Itamaraty, foi transferida para o Mdic.
Para o professor da Faculdade Santa Marcelina, Reinaldo Batista "o Brasil está copiando a estratégia argentina com seus parceiros comerciais".
O Brasil tem tomado outras medidas para a proteção da indústria nacional, que segundo o professor da Faculdade Santa Marcelina são paliativas. Uma delas foi o aumento de Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis estrangeiros, instituído no último ano. "O governo está utilizando esse arsenal de medidas só para tentar tapar buraco aberto na indústria nacional", completou
As negociações sobre participação da Venezuela na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco também geraram ranhuras na relação entre o Brasil e o parceiro comercial latino americano. Os governos tinham decidido que a construção da refinaria seria conjunta mas a Petrobras deu início às obras antes. Ontem o ministro Venezuelano de Petróleo, Rafael Ramírez, afirmou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deu o prazo de até 31 de março para decidir se o país vai participar das obras.
O professor da ESPM critica os acordos comerciais que o Brasil faz com muitos países por serem pontuais, por produto e não gerais, de livre comércio. Acordos mais amplos deixariam o caminho "mais livre", completou.
Acordo México
O Acordo de Complementação Econômica fez o comércio de automóveis subir de pouco mais de US$ 1,1 bilhão em 2002 para US$ 2,5 bilhões em 2011. Na última semana, o ministro do desenvolvimento Fernando Pimentel afirmou que o Brasil gostaria de rever algumas cláusulas do acordo para que fique menos "desequilibrado" e que poderia usar a cláusula de saída do acordo .
Na última quarta-feira o governo mexicano lançou um comunicado afirmando que não estava disposto a renegociar.
Para Marx "com certeza no bojo dessa discussão [do convênio] virão outros acordos, do ponto de vista estratégico, o governo brasileiro e deve aproveitar essa oportunidade para ampliar a pauta, incluir outros produtos em que para equilibrar a balança".
Segundo dados da balança comercial de janeiro a América Latina e o Caribe tiveram participação de 22,7% nas exportações brasileiras sendo o México o segundo principal País de destino dentro do grupo. Os produtos mais exportados pelo Brasil para o País da América do Norte foram automóveis, materiais manufaturados e aço.
Para Batista "essa possível quebra de acordo vai inviabilizando as relações entre os países e vai criando uma desconfiança, hoje o México vai olhar o Brasil de outra forma para fazer acordos". O professor do Ibmec afirma que "abrir mão do acordo é abrir mão de exportar para o México, não sei se isso é sério".
Durante a tarde de ontem o ministro de Relações Exteriores, Antonio Patriota, afirmou que "os encontros estão ocorrendo em nível técnico. Por enquanto ainda estamos examinando essa questão. Não há um resultado, e nem é esse o objetivo desse exercício no estágio em que se encontra".
Fonte: Diário do Comércio e Indústria
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