Pergunta: Por que é tão difícil comprar um iPhone na Argentina?
Resposta: Devido a uma incrível mixórdia de razões políticas e econômicas.
A Argentina fabrica eletrônicos na Terra do Fogo, o portão da Antártica, onde vivem pinguins e leões- marinhos, no extremo sul das Américas.
Em 2009, a presidente Cristina Kirchner, à guisa de criar empregos, ressuscitou uma política industrial protecionista que o governo militar do país havia iniciado em 1972.
Ela impôs o que ficou conhecido como "el impuestazo", uma medida que dobrou o imposto de valor agregado sobre eletrônicos importados, à qual depois se juntaram exigências restritivas de licença para importações. Ela também reduziu os impostos já baixos pagos por empresas de eletrônicos que montam produtos na Terra do Fogo, onde há quatro décadas o governo oferece um leque de incentivos para atrair indústrias.
Kirchner disse que as medidas para reforçar a zona franca implicariam "menos dólares que vão para fora para pagar importações e mais trabalho para todos os argentinos". Nos últimos três anos, a Argentina já criou cerca de 10.000 empregos em linhas de montagem, que produzem TVs da Samsung Electronics Co., laptops da Lenovo Group e celulares da Nokia Corp. E trabalhadores de fábricas ganham cerca de US$ 2.500 por mês, mais generosos benefícios - uma remuneração gorda para padrões argentinos.
Mas as medidas tiveram um lado ruim para argentinos que querem os aparelhos mais quentes do mundo. Os que são feitos fora da Argentina são difíceis de encontrar e caros demais.
As iniciativas de Kirchner forçaram multinacionais de eletrônicos a ou encontrar um sócio local para montar seus produtos na Terra do Fogo, ou praticamente encerrar operações num país cuja economia cresceu cerca de 9% no ano passado. Conforme empresas como Sony Ericsson, Research in Motion Ltd. e Hewlett-Packard Co. mudaram a produção para a Terra do Fogo, a fatia da região no mercado doméstico de celulares e telas de cristal líquido para computadores disparou de 2% e 0%, respectivamente, em 2008, para 81% e 88% no ano passado.
"Faz muito frio aqui, mas há muitos empregos", diz Alejandro Cisterna, de 25 anos, que pouco tempo atrás veio do norte, da Província de Buenos Aires, e arrumou um emprego consertando máquinas para a Digital Fueguina, que monta produtos Samsung. Com um salário quase o dobro do que teria conseguido em seu lugar de origem, Cisterna logo comprou um carro e uma variedade de aparelhos eletrônicos.
Mas muitos economistas, especialistas em tecnologia e consumidores criticam o programa, dizendo que ele direciona fundos públicos para um setor não competitivo e força consumidores a pagar preços mais altos para produtos menos avançados. Os benefícios fiscais para fabricantes da Terra do Fogo, inclusive isenções de imposto de renda, de valor agregado e de importação de componentes, vai custar ao tesouro argentino cerca de US$ 1,3 bilhão, conforme o orçamento de 2012, ou cerca de US$ 100.000 para cada emprego fabril criado. Eduardo Levy Yeyati, um economista da Universidade Torcuato di Tella, em Buenos Aires, diz que os subsídios representam, na prática, uma transferência de renda dos agricultores e pecuaristas internacionalmente competitivos da Argentina para o setor industrial e para trabalhadores relativamente mal qualificados.
Os operários da Terra do Fogo "inserem a peça A na cavidade B e põem uma etiqueta que diz 'Feito na Terra do Fogo'", diz Mariano Amartino, um consultor e blogueiro de tecnologia. O grosso dos componentes é importado da Ásia. A Argentina produz algumas molduras de plástico para TVs e módulos de memória, embora estes sejam feitos na área central do país, não na Terra do fogo. A maior parte do conteúdo feito domesticamente consiste de material de embalagem, manuais e parafusos.
Alejandro Mayoral, presidente da associação de fabricantes de eletrônicos da Argentina, diz que quando o custo trabalhista é levado em conta, as fábricas da Terra do Fogo contribuem com cerca de 30% do valor do produto. Ele acrescenta que os críticos também têm dado pouca atenção aos entre US$ 400 milhões e US$ 500 milhões em investimentos despejados na zona franca nos últimos anos para fazer linhas de montagem equiparáveis às mais modernas do mundo. O nível de emprego está um pouco abaixo do pico sazonal de 13.500 em dezembro, mas ainda bem acima dos 3.500 pré el impuestazo. Mayoral diz que a área de alfândega também gera outros milhares de empregos indiretos.
Mas os críticos observam que o programa restringe o acesso da Argentina a produtos de empresas de tecnologia, entre elas a Apple Inc., que se recusam a montar na Terra do Fogo. Devido às barreiras argentinas de importação, os produtos da Apple ou são muito caros ou quase impossíveis de se adquirir. Restrições de importação reduziram a disponibilidade de iPhones, o que levou o jornal "Clarín" a dizer que as autoridades argentinas estão na prática dizendo "iPhone, go home" (iPhone, vá para casa).
Enquanto isso, consumidores argentinos pagam muito por produtos feitos na Terra do Fogo. Um televisor Sony de cristal líquido de 32 polegadas custa cerca de US$ 800 em Buenos Aires - cerca de o dobro do preço no Chile, onde um número cada vez maior de argentinos está indo às compras graças aos impostos de importação mais baixos do país vizinho.
Governantes argentinos dizem que estão tentando criar empregos, e fãs de tecnologia simplesmente terão de fazer um sacrifício pelo interesse nacional. "A tirania dos consumidores não pode ser a base de toda uma política econômica", diz Juan Ignacio Garcia, secretário de Indústria da Terra do Fogo.
Uma das coisas que tornam os custos operacionais tão altos na Terra do Fogo é a logística. Componentes são despachados da Ásia para Buenos Aires e então viajam de caminhão - as ferrovias argentinas estão em petição de miséria e o porto de Ushuaia geralmente está sobrecarregado - 3.000 quilômetros até a Terra do Fogo. Caminhões carregam produtos acabados para o norte por estradas esburacadas e cheias de gelo, até Buenos Aires. O processo todo, desde encomendar um produto até colocá-lo nas prateleiras das lojas do país, leva três meses, diz Edgardo Rodríguez, gerente industiral da fábrica da Digital Fueguina.
A economia da Terra do Fuego sofreu a partir dos anos 90, com a abertura ao comércio que se seguiu ao fim do regime militar na Argentina. O impuestazo de Kirchner revigorou o mercado de trabalho na região, mas ainda não produziu a redução prometida na conta de importações da Argentina. Na verdade, nos primeiros nove meses de 2011, o país teve um déficit comercial em torno de US$ 7 bilhões no setor de eletrônicos - inclusive componentes para a Terra do Fogo -, fazendo do setor o mais pesado na balança comercial argentina.
Fonte: Valor Econômico