terça-feira, 4 de outubro de 2011

SELIC IDEAL SERIA DE ATÉ 3% AO ANO SEM INFLAÇÃO, DIZ MANTEGA


O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que o governo está a criar condições para que o Banco Central (BC) possa reduzir a taxa básica de juros (Selic) e que um patamar ideal dos juros no País seria para algo próximo a países desenvolvidos, ou seja, em torno de 2% a 3%. Atualmente, a Selic está em 12%.
"Óbvio que esse patamar não dá para ser atingido da noite para o dia. Nem seria prudente que se fizesse isso. É preciso que as condições estejam dadas e o BC verificar se a redução é possível, sempre de olho na inflação, porque a inflação alta é tão ruim quanto juro alto. A inflação precisa estar sob controle, porque não há nada que prejudique a economia mais do que ela", destacou ele, após participar de almoço com empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Segundo o ministro, o governo cria as condições para esse objetivo, ao aumentar, recentemente, a meta do resultado primário deste ano em R$ 10 bilhões, para R$ 127,8 bilhões, assim como ao diminuir as despesas correntes. "Com essas condições pode ser que o BC faça essa redução daqui um, dois, três anos. Não sei, de fato, é a autoridade monetária que definirá", constata.
Além disso, apesar de reconhecer que a atual taxa de juros no País prejudica a economia, o ministro da Fazenda afirmou que o alto patamar traz vantagens. "Se a crise internacional se agravar - como foi em 2008, quando não tinha disponibilidade de crédito - temos como abaixar as taxas de juros. Porque a inflação certamente não vai aumentar", analisa. "Temos uma política monetária com muito grau de liberdade. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de juros é de 0,25%, o que impossibilita diminuir mais. Desta forma, eles já utilizaram todos os instrumentos e não saiu da crise, diferentemente do que acontece no Brasil", acrescenta Mantega.
Crise internacional
O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, comemorou o fato de que o ministro da Fazenda reconheceu que a alta taxa Selic prejudica a economia, principalmente a competitividade industrial. "O ministro se mostrou preocupado com a crise internacional e certamente otimista com a situação brasileira. É muito importante saber que o governo está preparado para lidar com a crise assim que se agravar", avaliou, também após o encontro na Federação.
Mantega reiterou que o governo vai priorizar a utilização de "instrumentos monetários mais do que os fiscais, caso a crise venha a se agravar". "Além de termos condições de abaixar os juros. Temos um compulsório de cerca de R$ 500 bilhões que podem liberados para os bancos. Se faltar crédito para o comercio internacional, podemos usar as reservas que, atualmente, são R$ 350 bilhões, quase o dobro do que tínhamos em 2008 [R$ 200 bilhões]", apontou. "Vamos manter nossa política fiscal até 2014", complementou.
Dólar e inflação
Mantega comentou ainda sobre os reflexos das ações adotadas pelo governo para conter a valorização do real ante o dólar. Ele disse que não há motivos para retirar as medidas tomadas - como a adoção do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no mercado futuro de dólar - mesmo com a valorização da moeda norte-americana. "Somado a situação externa, na qual ocorre a aversão ao risco (busca por dólar e redução da entrada de capital estrangeiro em países emergentes, como o Brasil) e, com as medidas, conseguimos evitar que o dólar ficasse menor do que R$ 1,50, o que é muito ruim para a economia. Não há motivos para retirar essas medidas agora", argumentou Mantega.
Para o presidente da Fiesp, não há um patamar ideal para o câmbio. Porém, dólar cotado a R$ 1,80 traz um equilíbrio para a economia brasileira. Ontem, a moeda-americana fechou a R$ 1,892.
"Uma coisa interessante que acontece no Brasil é que a crise, por exemplo, valoriza o dólar e, portanto, valoriza nossas reservas. Desta forma, nossa dívida em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) recua. Esse endividamento chegou a 39,2% do PIB em agosto, sendo que estava a 39,8%. E tende a cair ainda mais."
O ministro disse também que nas próximas semanas deve ocorrer uma redução dos preços dos alimentos, por conta do ambiente externo, o que deve gerar um efeito desinflacionário no País. "Hoje estamos com uma queda forte nos preços das commodities. Os Estados Unidos anunciaram, por exemplo, um estoque de grãos elevado para um consumo baixo. Isso fez com que caíssem os preços do trigo, do milho e da soja. Portanto, podemos esperar queda dos preços dos alimentos nas próximas semanas, já que ainda não deu tempo de ser captado pelas estatísticas de inflação. Nós [governo] vemos um movimento de redução de preços na órbita mundial", ilustrou.
Skaf concorda com o ministro, apesar de afirmar que queda nos preços dos alimentos também "não é o melhor" que pode acontecer ao País.

Fonte: Diário do Comércio e Indústria

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